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Precisamos falar sobre 13 Reasons Why + Resenha

 

 

Senta que lá vem textão. Vamos falar sobre a série 13 reasons why, febre do momento no Netflix que levanta vários assuntos a serem refletidos pela sociedade. Eu não gosto de séries, me julguem, mas sou muito curiosa com temas psicológicos, e fiquei tão intrigada com a repercussão, que assisti a primeira temporada direto e praticamente sem intervalo. Lembrando que minhas considerações são pessoais, referidas a uma personagem, abrindo pra debate e qualquer opinião será respeitada.

A série se trata de Hanna Baker, uma adolescente de 17 anos, que comete suicídio e deixa 13 fitas cassetes aos culpados por sua morte. Quase todos nós passamos por bullying seja na infância, adolescência, vida adulta ou até mesmo na velhice. Os julgamentos ofensivos, o assédio moral, os preconceitos e a violência, todos estamos suscetíveis a esses desprazeres durante a vida. O fato é que passar por isso no início da vida, pode trazer problemas no desenvolvimento psicológico, já que estamos em fase de formação. Sabemos que tanto a infância, quanto a adolescência são fases de maior fragilidade em que não temos preparo pra enfrentar a crueldade humana, por isso, acredito que seja de grande valia, o eterno acompanhamento de profissionais da área da saúde, principalmente da área psíquica, porque, por mais que os pais sejam atenciosos e presentes, isso não garante a segurança mental de seus filhos, até porque, a maioria não tem habilidade profissional pra notar traços de distúrbios psicológicos patológicos.

A série em si, tem elementos positivos e negativos. Entre os positivos, estão o debate sobre assuntos sérios que muitas vezes são negligenciados, ou que ainda não se tenha encontrado uma solução. Levantar essas questões e trazer uma reflexão em cima disso, é um papel social importante, que parece ser o objetivo do criador. Porém, a série traz alguns aspectos negativos e perigosos que eu gostaria de comentar:

Atenção: Alerta de Spoiler, nos itens 2, 3 e 4!

1- A busca incessante por culpados que vem de todos os lados:

Hanna, após ter sofrido inúmeros abusos, busca através de uma espécie de jogo psicológico, culpar essas pessoas por sua morte. Com exceção dos crimes, em que há uma vítima e um culpado, e este deve responder legalmente por suas ações, as outras acusações de culpa por um suicídio não fazem sentido. Até porque, os jovens apontados, passam por diversos problemas, tanto quanto ela, e abalados, acabam reagindo de maneira irresponsável com os próprios instintos humanos que estão em fase de identificação e controle. A vida não é um mar de rosas e o ser humano não é perfeito, portanto, estamos constantemente errando e aprendendo. É impossível controlar todos os erros humanos, principalmente porque são movidos por um complexo de emoções e questões que antecedem a ação. Mas a campanha de conscientização é válida pra que as pessoas saibam as consequências de ferir alguém, seja fisicamente ou psicologicamente. Mas tudo na vida é uma questão de escolha e consequência. Uma grande parcela de pessoas, quando sentem dor e não são percebidas, sentem o desejo de ferir. É quase uma tentativa de transferir ou projetar a dor, então não basta só repreender o bullying, mas começar também uma campanha de cura interna, ou seja, tratar a raiz do problema ao invés de só remediar.

2 – A romantização do suicídio:

A série coloca a trama de uma forma, em que existe uma vítima e uma série de culpados, como se só isso justificasse o suicídio dela, sem apontar os distúrbios psicológicos da personagem que passam quase desapercebidos. O que caracteriza um suicídio, sem dúvida, é uma teia complexa de inúmeros fatores, de difícil compreensão até para os especialistas, onde não cabe julgamento, porque ninguém sabe o que é ser o outro, nem como dói no outro. Na minha opinião, é um erro ser banalizado dessa forma, até porque, as pessoas que não compreendem a trama de forma global, podem tratar isso como um exemplo que funciona, como uma forma de existir não existindo, como forma de vingança, ou de se sentir percebido, e tudo isso sem mostrar o outro lado da moeda. Uma coisa que, por exemplo, vai passar batido por muitos, e olhando aqui por um prisma de óculos cor de rosa, como se Hanna não tivesse distúrbios psicológicos, é que ela quer tanto ser percebida por alguém, que não percebe ninguém. Nem ela mesma. Não percebe a dor dos outros e nem percebeu o poder de encantamento que tinha, a facilidade de fazer amigos, sua beleza, sua inteligência fascinante, a família unida que a amava e apoiava, e que o homem que ela teoricamente mais admirava, a amava. Talvez ela até fosse consciente e tivesse inclusive um caráter manipulador diante disso, mas como as coisas não saem da forma como a personagem projeta, ela se enxerga como a vítima do mundo. Sua necessidade de pertencimento é tão obsessiva, que a cega, e ela mesma se coloca em situações que poderia ter evitado, já sabendo o perfil de todas as pessoas que buscava se relacionar e pertencer, pois, muitas de suas frases ao se referir a algum “culpado” nas fitas, são sempre muito analíticas, e muitas vezes julgadoras. A diferença é que ela só expõe isso, quando resolve sair de cena, ou seja, depois de morta, pra não arcar com as conseqüências dos seus não enfrentamentos e opiniões enquanto viva. Ela até enfrenta alguns agressores, mas não da forma elaborada das fitas e também não enfrenta as situações em si, em inúmeros casos que citarei no ultimo item. Até porque, existem algumas contradições, como quando ela fala pra Courtney não dar importância a uma foto vazada, ou quando ela compara o corpo do Justin ao do Clay. A série traz o foco pra ela, e deixa as outras personagens com um aspecto sutil, como se sofressem menos, só porque não se suicidaram. Tem uma frase do Clay que me chamou atenção, quando ele leva a Courtney pro cemitério, em que ele diz: “O que as pessoas pensam de você, não é mais importante que a vida da Hanna” ou seja, alguma vida no mundo tem mais importância que a outra? O sofrimento de alguém pode ser mais importante que o de uma outra pessoa? Claro que não. Por isso a trama é perigosa, porque é de fácil identificação, e a maioria dos jovens não conseguem captar estes elementos pra questionamento. Cenário perfeito pra um efeito Werther, conhecido por esse nome por conta de um boom de suicídios na Alemanha, inspirados em um livro do Goethe. Sem falar que fere algumas orientações da OMS (organização mundial de saúde) que alerta para não abordar, por exemplo, método, detalhes ou local onde uma pessoa faleceu. Ou retratar o suicídio de forma romantizada ou como resposta aceitável perante as dificuldades, porque no fim, Hanna é praticamente canonizada e vira símbolo de maior importância na escola, e a dor de todos os outros ficam em segundo plano, além de serem fadados a culpa eterna. Ou seja, uma menina apaixonante, vítima da crueldade do mundo, e a única solução romantizada pra isso é o suicídio.

3 – Desvendando o lado sombrio de Hanna Backer e a obsessão pela culpa:

Quando Hanna resolve dar uma última chance a vida, resolve procurar justamente um conselheiro bem inapto a tratar do caso e negligente. Parece até que conscientemente ou inconscientemente, busca por mais um culpado, porque, provavelmente, ela sabia que ele não agiria da forma como esperava, ou não teria as respostas que ela gostaria, até porque, ela é bem abstrata ao se abrir com ele, e fica esperando uma falha, um gatilho, pra mais uma forma de culpar alguém. Essa cena é bem ambígua, porque o que se espera do espectador, é que compreenda que ela não consegue falar a respeito da sequencia de abusos, por estar em estado de choque. Mas quando ela sai da sala, ela pára no corredor, de maneira bem sombria, e diz: “É, ele não virá atrás de mim”. Dando a interpretação subjetiva de: “encontrei mais um culpado”. A situação de Hanna na verdade é bem atípica, pois a sequencia de eventos abusivos e absurdos que acontecem com ela, um após o outro, no contexto em que ela vive, convenhamos que não é muito natural na vida real. Não que não haja exceções, mas geralmente existe um equilíbrio. Em nenhum momento ela procura a primeira amiga do primeiro episódio pra conversar. Ela teve inúmeras oportunidades de conversar com o Clay enquanto trabalhavam na mesma empresa, onde se viam praticamente todos os dias e ele sempre se mostrou disponível. Ela tinha chance de fazer outros amigos que não fossem os populares, mas ela tinha fixação por eles, mesmo sabendo o perfil de cada um, e não era ingênua em saber de suas habilidades pra conseguir o que queria. A habilidade dela em fazer novas amizades é bem nítida, e dá pra ver que o problema não é não ter amigos, mas não ter os amigos que ela quer. Tanto que nas cenas em que ela arquiteta a conquista do Justin, fica bem claro o quanto ela pode ser ardilosa em manipulação. Sem falar que quem arquiteta um plano maquiavélico como as 13 fitas, não tem traços de uma mente sã. E também não mostra lucidez quando entra na banheira do Bryce, que cometeu um crime cujo foi testemunha, e que inclusive já havia sido assediada pelo mesmo, tendo a mais plena certeza de que seria uma vítima em potencial. Não conseguiu denunciá-lo, mas fez questão de ser o extremo exemplo de cidadania ao denunciar o acidente de Sheri, não acusando-a explicitamente as autoridades, mas fazendo-a se sentir culpada por atropelar uma placa de transito e ser responsável por um possível acidente, quando esta, estava tentando levá-la pra casa em segurança com a melhor das intenções. Ou quando ela tem diversos momentos de compreensão do Clay, e diversos momentos pra abordá-lo e tentar explicar o que aconteceu na festa, porque ele também tem direito de ficar confuso, ela age naturalmente, esperando que ele tenha bola de cristal e tome a iniciativa de tentar salvá-la, esperando o momento perfeito pra culpá-lo. Então ela o culpa por não estar presente, no único dia em que precisou, ignorando todos os outros em que ele esteve ao lado dela. Ela parece a busca de um herói, isento de falhas, ignorando sempre o lado bom. Dá impressão de que há uma obsessão em fazer as pessoas a sua volta se sentirem culpadas, principalmente quando ela diz ao conselheiro que não quer ser um problema pra família, sendo que nitidamente nunca foi, pois a família a todo momento se mostra presente e atenciosa, mimando-a inclusive, e no único momento da série, em que a família a repreende, por um erro dela, ela culpa a família por não agir da forma que espera e age novamente como vítima. Outro elemento interessante é o Tony, que nunca fez nada pra ela, e se comprometeu a cumprir sua vontade póstuma, mas no organograma dela, ele aparece com um ponto de interrogação, porque de fato ela não sabe se ele vai cumprir com a promessa, mas caso ele não cumpra, ele integra e completa o organograma de culpados. Me chama atenção também a frieza dela em sua relação com os pais, é absolutamente distante e esquisita, eles parecem insignificantes pra ela.

Por fim, nessa minha teoria, acredito que Hanna tenha distúrbios psicológicos, inclusive traços psicopatas de ter sido capaz, TALVEZ, de manipular todas as situações pra encontrar culpados pela frustração de não ser aceita por aquele grupo de pessoas em específico com intuito de vingança, por questões das mais malucas que pudessem passar na cabeça dela, e que partiram de um julgamento e uma condenação. Porque todos os culpados eram populares, ou populares em potencial no caso de Alex e Jessica, pois ela os considerava bonitos. Afinal, porque ela não se aproximou da garçonete do Monet’s, a “loira gótica”, já que ela pedia o mesmo chocolate todos os dias, estudava na mesma escola, e tinham praticamente as mesmas coisas em comum? De certa forma, me parece que ela nutriu um ódio por ser rejeitada por esse grupo e planejou uma arquitetura completamente diabólica. Mas é apenas uma hipótese, uma suposição. Ela é vitima sim, de todos os abusos, sem nenhuma dúvida, e nada, absolutamente nada, justifica nenhuma violência, agressão ou abuso. Ela é literalmente invadida em vários momentos, retratando bem a realidade feminina embutida num mundo machista. Inclusive a série fala dos dois assuntos, violência contra mulher e suicidio praticamente em igual relevância na exploração da trama, fazendo com que os agressores ou abusadores da vida real se identifiquem nessas ações e reflitam. Mas o assunto é mais complexo do que parece. Ela também me parece uma abusadora moral, e a vingança psicológica não fica só para os agressores, mas pra amigos e família também, que não recebeu nenhuma carta de adeus, demonstrando uma estranhíssima indiferença. É impossível saber como Hanna se sente e o que realmente tem em mente. Me lembrou um filme que assisti recentemente, o Elle, onde a questão do distúrbio psicológico é explícita no filme, e quem assistiu vai entender o que eu estou falando. Mas enfim, tudo isso é apenas uma teoria reflexiva que tendencia pra todos os lados da história, mas não unilateral. Resumido: tudo é possível, porém nada afirmo ser uma verdade.

4 – A série coloca uma situação em que a responsabilidade da instituição de ensino parece maior que a dos pais:

De fato acontece uma série de negligências por parte da escola, principalmente através do conselheiro, que é praticamente o único responsável por acompanhar uma série de adolescentes em crise. Os outros profissionais parecem não ter nada a ver com isso. O diretor nem se importa se ele tem tato pra lidar com assuntos tão sérios, e nas conversas, nota-se que ele não tem, além de que o conselheiro parece estar mais interessado em encontrar culpados, do que perceber os adolescentes, banalizando as questões de todos. Os pais também buscam mais por culpados, do que entender a causa da morte, como se fossem isentos de responsabilidade, o que não significa culpa.

Conclusão:

Acho bem séria a questão desta série, não me parece adequada nem pra menores de idade, nem pra pessoas com traços de problemas psicológicos, pois a identificação é fácil, e a lucidez passa bem longe dessa saga. Eu acho que essa série é pra maiores de 80 anos na verdade. Embora tenha repercutido bem e pelo que tenho lido, aumentou consideravelmente a procura às instituições de apoio, tem um lado de empatia ao suicídio gigantesco. É bem fácil se apaixonar por Hanna e tê-la como heroína. A campanha de incentivo dos produtores está nos créditos finais, onde os atores pedem atenção pra causa, mas a série em si não oferece saída pra Hanna. E a vida real parece que não está muito condizente com Justin Prentice, que faz o Bryce na trama. Andei lendo que ele está sofrendo bullying e sendo hostilizado por pessoas que não são nem capazes de separar realidade de ficção. Ou seja, uma série que tem intenção de acabar com o bullying, por outro lado está gerando mais bullying, provando mesmo que não é indicada pra qualquer um. O bullying acontece a todo tempo, em qualquer idade ou situação, principalmente quando consideramos os neo haters da internet. O ódio continua sendo disseminado a torto e a direita, e agora com a possibilidade de ser anônimo, e não precisar arcar com as consequências. Como eu disse, na minha opinião pessoal, explanar todos os assuntos mais complexos do relacionamento humano, de forma genérica e banal, não parece a melhor forma de evitar que tragédias aconteçam. Acredito que se a gente vomita a própria dor no outro, é preciso curar antes de tentar repreender. Uma pessoa ferida, dificilmente vai se importar com a dor do outro. Inclusive a série elucida bem isso. Acho que mais importante que a consciência do ato agressivo, abusivo ou violento, é a consciência da própria dor, e tentar alguma forma de cura. Eu nunca ouvi falar de pessoas “de bem com a vida”, pra não dizer “felizes”, que agridem outras gratuitamente. E novamente, na minha opinião, terapia deveria ser obrigatória desde a infância, pra tentar garantir referências de segurança, conforto, afeto e atenção que são necessidades humanas, onde nem todos, senão a grande maioria, tem essa oportunidade no lar, ao invés de tentar remediar tanta gente doente.

Com a ressalva de que, o acolhimento a um ser humano é essencial, mas o mesmo ser acolhido, precisa também se responsabilizar em olhar pra dentro, encarar os próprios medos e sombras, enxergar possíveis defeitos, falhas e erros, e se apontar pra um lado que geralmente ninguém quer, o lado obscuro de si. Nem tudo na vida deve ser do jeito que a gente quer e projeta, e o medo de que não seja assim, acredito que possa contribuir pra causa dos casos de ansiedade e depressão por exemplo, essa obsessão por controle. Precisamos também parar de nos identificarmos tanto com o que os outros dizem, ou nos preocuparmos menos com o que os outros pensam. Quando eu era pequena, e me queixava de bullying, o que eu ouvi dos mais velhos foi: “Ignore e verá que uma hora que isso vai acabar” e foi exatamente o que aconteceu, foi uma forma bem eficaz de lidar, e que eu consegui lidar, o que não significa que todos consigam. O bullying precisa acabar? Com certeza. Mas culpar o mundo por todos os problemas é fácil, difícil é ter responsabilidade de olhar pra si. A trama é complexa porque deixa o espectador intimidado em questionar a vítima, mas eu sempre acho que todos os lados precisam ser considerados, e no caso de crime, apurado e encaminhado a lei e a justiça.

Salientando mais uma vez aqui que, eu não estou dizendo nenhuma verdade absoluta, em nenhum dos assuntos que abordei. É apenas a opinião de uma espectadora, avaliando uma PERSONAGEM, que isso fique claro, e deixando por fim, apenas uma opinião pessoal a ser refletida e debatida, até porque a proposta da série é justamente essa. Seria possível refletir e compartilhar pensamentos sem nos agredirmos? Espero que sim.

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